
Primeiramente gostaria de esclarecer o que significa “ócio”. Segundo o dicionário do google é: cessação do trabalho; folga, repouso, quietação, vagar; e espaço de tempo em que se descansa.
Porque resolvi escrever sobre o ócio infantil? Porque vivemos um momento em que as coisas acontecem muito rápido devido a tecnologia, recebemos um grande fluxo de informações diariamente e as pessoas parecem sempre ocupadas e correndo de um lado para o outro.
Já percebeu como ficamos irritados quando não estamos fazendo alguma coisa? Quantas crianças você conhece que têm uma rotina parecida com a de um adulto? O problema é que com isso estamos perdendo a capacidade de nos conectarmos com nós mesmos e de aproveitarmos o ócio de uma forma positiva. Já ouviu falar em ócio criativo? É nesse período de ócio que nos conectamos com nós mesmos e surgem ideias inovadoras, pois nossa mente está desligada da correria do dia-a-dia.
No livro “O Ócio Criativo”, Domenico diz:
“Existe um ócio alienante, que nos faz sentir vazios e inúteis. Mas existe também um outro ócio, que nos faz sentir livres e que é necessário à produção de ideias, assim como as ideias são necessárias ao desenvolvimento da sociedade.”
E ele continua:
“Com trabalho, estudo e diversão, construiremos nossa identidade, não mais pelo que temos, mas através do que sabemos.”
O grande problema é que estamos transferindo esse péssimo hábito para nossas crianças, queremos ocupá-las o tempo todo. É comum ouvir as crianças dizerem: “não tem nada pra fazer.” Vale um alerta!! Essa criança pode não estar acostumada com o ócio, com o tempo de descanso.
Quantas vezes você já ouviu pais reclamando das férias escolares? Muitos alegam que não aguentam a criança em casa, pois ela não para um minuto. É aí que os pais acabam criando agendas e roteiros para os filhos se manterem ocupados o tempo todo, principalmente nas férias escolares!
A criança, geralmente, acorda cedo para ir à escola, muitas permanecem período integral. O ambiente escolar é um ambiente “institucional”, por melhor que ele seja, não é o ambiente familiar, e esse é um dos motivos das férias escolares, para que a criança descanse dessa rotina cansativa. Lembre-se que para o desenvolvimento da criatividade é necessário o tédio, pois para sair da mesmice a criança terá que se reinventar, e isso é muito positivo e necessário!
Você lembra das suas férias escolares? Na minha época todas as crianças da rua se juntavam e nos divertíamos, criando nossas brincadeiras. Tínhamos espaço e explorávamos todas as possibilidades do bairro onde morávamos, se existisse um pedaço de terra e algumas plantas, lá estávamos nós. Eventualmente as mães se juntavam e organizavam algumas excursões com a criançada. Quando não estávamos em casa ou na rua, podiam nos encontrar no máximo na casa dos avós.
Infelizmente, o que vemos hoje são pais prontos para atender as necessidades dos filhos imediatamente, para que eles não tenham que colocar nenhum esforço para resolver seus conflitos ou frustrações. A pergunta é: que tipo de adultos estamos formando?!
Portanto, vamos deixar as crianças encontrarem soluções, usarem a criatividade e se conhecerem, podemos criar programações sim, mas com equilíbrio, deixando espaços para o “ócio criativo” das crianças, pois só assim elas irão explorar o mundo à sua volta. Menos tv e tecnologia e mais brincadeiras livres, movimentos corporais e criatividade! Mais “ócio criativo” para as nossas crianças!
Cristiane Saraguci – Neuropsicopedagoga Clínica
