Entendendo para não julgar: como é a vida de famílias de crianças com autismo e deficiência intelectual?

Foto por Liza Summer em Pexels.com

O que eu vou explicar para vocês é o que a minha experiência na convivência com essas famílias na clínica me trouxe de aprendizado e também o que alguns estudos comprovam.

Eu sou mãe de três meninas e lembro bem como foram as gestações e todos os preparativos para a chegada de cada uma delas. Uma das coisas que já me preparei foi para a demanda de tempo que a criança exigiria, pois um bebezinho demanda vários cuidados durante os primeiros anos de vida. Lembro que em alguns momentos eu pensava que nunca mais iria dormir (rsrs), era um cansaço interminável, mal me reconhecia no espelho, olheiras, cabelo sempre amarrado, noites mal dormidas. Mas nós sabemos que tudo isso é temporário, pois conforme os pequenos crescem vão ganhando mais autonomia.

Quando se tem um filho com autismo ou deficiência intelectual é a mesma coisa, porém uma coisa é diferente, a parte do “temporário”, da “independência” e da intensa rotina de terapias.

O nível de estresse de mães de pessoas com autismo é similar ao estresse crônico apresentado por soldados combatentes, segundo estudo realizado com famílias norte-americanas e divulgado no Journal of Autism and Developmental Disorders.

Vamos tentar refletir um pouco sobre porque isso acontece. Uma mãe de uma pessoa com autismo ou com deficiência intelectual vive em estado de alerta:

  • Grande parte das pessoas com autismo são não verbais, o que significa que não sabem expressar o que estão sentindo ou querem, as mães precisam o tempo todo tentar interpretar o comportamento do filho;
  • Devido ao prejuízo na comunicação e outros comprometimentos sensoriais, o filho entra em crise, portanto ela precisa aprender a lidar com ela;
  • Pessoas com autismo podem apresentar seletividade alimentar, o que deixa a mãe em alerta para as necessidades nutricionais do filho;
  • A mãe também está sempre em alerta para entender se o filho está com alguma dor ou incômodo;
  • A rotina de terapias é intensa, a logística é complicada, imagine uma rotina diária de 4 horas de terapia por dia e você precisar dispor deste tempo sem previsão de alta, durante anos a fio;
  • As saídas sociais muitas vezes estressantes devido a descarga sensorial que pode causar no filho, o que gera crises em público;
  • Alerta para que não ocorram situações constrangedoras em ambientes sociais, evitando, por exemplo, que o filho tire toda a roupa em público simplesmente por estar com calor ou atacar a comida na mesa vizinha porque não sabe esperar quando está com fome;
  • E por último, mas não menos importante, a rejeição que os filhos enfrentam na sociedade, como é doloroso ver que todos os amiguinhos da escola foram convidados para uma festinha de aniversário, menos o seu filho, pois “deduziram” que ele não gosta mesmo, sem pensar na dor que a mãe e a família enfrentam com esses comportamentos.

Espero com este artigo levar um pouco mais de conhecimento, pois acredito que o conhecimento é a base para sermos seres humanos melhores. Quando não temos o conhecimento podemos cometer equívocos e sermos injustos com o outro, porém a partir do momento que conseguimos ter um olhar empático, as relações se tornam mais afetuosas e passamos a ser mais generosos e tolerantes com o nosso próximo. Que possamos ajudar mais e criticar menos!

Meu filho é desatento, o que eu faço?

Foto por Andrea Piacquadio em Pexels.com

Então, a desatenção pode não ser nada ou pode ser muita coisa. É preciso observar a frequência da desatenção, em que situação e ambiente ela ocorre, se há prejuízos na vida pessoal, acadêmica, social e/ou profissional.

A desatenção pode ocorrer de maneira temporária, ou seja, por alguma situação que o indivíduo está passando em um determinado momento da vida que pode estar impactando em seu estado emocional.

Agora, se a desatenção é percebida desde criança, em todos os ambientes que o indivíduo frequenta e, com isso, ele está tendo prejuízos em sua vida, como por exemplo no desempenho acadêmico, é hora de buscar ajuda profissional para uma avaliação.

Geralmente quando as crianças estão apresentando baixo rendimento escolar, é comum que seja encaminhado para uma psicopedagoga ou neuropsicopedagoga para uma avaliação. Essa avaliação irá gerar alguma ou algumas hipóteses diagnósticas que poderiam justificar o baixo desempenho. Se existir queixa por parte dos professores e dos pais sobre desatenção, esse é um dos pontos investigados e posteriormente é feito um encaminhamento para o neuropediatra, pois somente o médico fechará o diagnóstico, caso haja possibilidade de um TDAH, por exemplo.

No caso dos adultos, além da desatenção, é comum observarmos sintomas de impulsividade. Ou seja, o indivíduo acaba tomando algumas decisões sem pensar, por impulso, o que acaba causando uma série de problemas em sua vida pessoal e profissional, ocasionando, inclusive, desgastes em seus relacionamentos. A melhor solução é buscar tratamento, que geralmente é combinado medicamentoso com terapia, principalmente para estimular o foco e a atenção.

Hoje em dia percebemos que alguns termos como TDAH ou Déficit de Atenção são utilizados de maneira leviana. TDAH é um transtorno (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), ninguém passa a ter esse transtorno depois de adulto, pois ele é um transtorno do neurodesenvolvimento. Uma das características do transtorno é justamente o aparecimento dos sintomas durante o período da infância, ficando mais evidente ao ingressar na escola, uma vez que a atenção é fundamental para o aprendizado.

Sendo assim, ao perceber que seu filho é desatento, preste atenção aos detalhes, de repente é apenas algo passageiro. Observe também como está o sono da criança, pois é fundamental que ela tenha um sono saudável. Faça tudo o que estiver ao seu alcance para eliminar possíveis distratores que podem estar interferindo na aprendizagem do seu filho (celular, tablet, televisão, jogos etc). Lembre-se que seu filho precisa de rotina, horário para acordar, se alimentar, fazer higiene, estudar, brincar e dormir, tudo tem sua hora.

Agora, se você já fez de tudo e mesmo assim percebe que algo não está certo, busque ajuda profissional para que não ocorram atrasos ainda maiores no desenvolvimento da criança, quanto antes começarem as intervenções, menores serão os prejuízos. Lembrando que o TDAH não tem cura, porém as intervenções precoces também ensinarão o indivíduo a lidar com o transtorno que o acompanhará por toda sua vida.

A importância do sono para a saúde e aprendizagem

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Já parou para pensar na influência que uma boa noite de sono tem na aprendizagem? Vivemos tempos em que as famílias possuem rotinas muito intensas, principalmente nos grandes centros urbanos. Fica difícil manter uma rotina de sono saudável quando se chega tarde do trabalho, as crianças querem atenção, ainda tem o jantar que acaba saindo mais tarde e assim por diante.

O problema com essa rotina é que acaba prejudicando não apenas as crianças, mas os adultos também. O sono interfere, por exemplo, na consolidação da memória, que é essencial para a aprendizagem. Sendo assim o sono ajuda as crianças a terem um melhor desempenho escolar.

Segundo diversos estudos, as pessoas precisam de pelo menos 8 horas de sono para melhorar sua performance profissional e social. O sono é essencial para uma vida saudável. Quando dormimos, recuperamos nossas energias e descansamos nosso corpo e mente. O sono também interfere em nosso desempenho cognitivo, impactando em nossa memória, atenção, registros sensoriais, raciocínio entre outros.

A aprendizagem está relacionada, principalmente, com nossa capacidade de memorização, ou seja, ela depende do nosso desempenho cognitivo. Algumas dicas que podem ajudar a ter um sono saudável são:

  1. Não utilizar aparelhos eletrônicos pouco tempo antes de dormir;
  2. Respeitar uma rotina de horário para dormir;
  3. Ter um ambiente de descanso agradável;
  4. Não consumir alimentos pesados e bebidas alcóolicas antes de dormir.

No caso das crianças e dos adolescentes o sono é ainda mais essencial, pois lembre-se que eles estão em período de desenvolvimento. Não basta ser exposto ao conhecimento, é necessário consolidá-lo e isso ocorre durante o sono, é quando o cérebro organiza todas essas informações.

Para cada faixa etária a quantidade de horas de sono muda, por exemplo, um bebê recém-nascido precisa de pelo menos dezesseis horas de sono, com seis meses de vida quatorze horas e com dois anos doze horas. As crianças geralmente precisam de dez horas de sono, enquanto os adultos de seis a oito horas para manter a saúde física e cognitiva.

Um hábito que ajuda a melhorar a qualidade do sono é a atividade física e a alimentação balanceada. Isso porque a atividade física ajuda a regular o organismo, o corpo produz homeostase, responsável pelo equilíbrio.

Fique atento, pois noites mal dormidas podem significar falta de qualidade de vida, pois afeta a atenção, causa irritabilidade e consequentemente interfere nas suas relações sociais, além de afetar diretamente a aprendizagem e o desempenho tanto acadêmico, como profissional.

Autismo e Deficiência Intelectual: como lidar com os comportamentos difíceis?

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Primeira coisa que precisamos ter em mente é que não existe comportamento difícil sem reforçador. Na verdade, todo comportamento humano é moldado por reforçadores positivos ou negativos. Isso é indiscutível! Toda birra, todo comportamento inadequado, possui uma função.

Sabendo disso, o primeiro passo é observar o que antecede o comportamento. Um dos motivos mais comuns é a criança querer chamar a “atenção” através do comportamento inadequado. Isso acontece porque a nossa tendência é dar mais atenção para o comportamento inadequado ao invés do comportamento adequado. E como lidar com essa situação?

Uma boa estratégia é prestar atenção na hora de dar o reforço positivo, observe o momento em que ela está tranquila, assistindo TV por exemplo, e reforce dando muita atenção. Ou seja, você começa a criar reforçadores positivos, ou seja, motivadores, para que ela perceba que terá a sua atenção ao se comportar de maneira adequada e não o contrário (isso não se enquadra os casos de autoagressão, nestes casos temos que conter o indivíduo).

Outra situação que costuma reforçar um comportamento inadequado é a “fuga”, ou seja, a criança quer se livrar de uma tarefa e para isso ela apresenta uma “crise”, nós pegamos a criança e vamos dar uma volta ou tiramos ela daquela tarefa. O que estamos fazendo? Reforçando que para se livrar de algo basta ela manifestar um comportamento inadequado.

Nestes casos, quando a criança é não verbal (não falam), além do reforçador, pode-se utilizar comunicação alternativa com imagens. Os comportamentos ocorrem porque a criança quer comunicar algo e essa é a forma que ela encontra de dizer que quer ou não quer alguma coisa. Você pode utilizar fotos, figuras, imagens para ensiná-la a mostrar para você o que deseja ao invés de se comportar de maneira inadequada.

Optando pela comunicação alternativa é preciso paciência e disciplina pois a criança aprenderá por repetição. Identifique primeiro o que antecede o comportamento e o tempo em que ele ocorre (monitore o comportamento antes de começar a intervenção). Apresente a imagem que corresponde ao que ela deseja antes dela emitir o comportamento, pegue na mão dela e verbalize o que ela quer, simule a entrega da imagem para você e a leve até o local ou objeto que ela deseja. Faça isso frequentemente, antes dela emitir o mal comportamento, repetidas vezes. Mas atenção, quando ela emitir comportamentos inadequados “não reforce fazendo o que ela deseja”.

Ensinar outras coisas para a criança também é uma excelente estratégia, pois quanto maior o repertório da criança, menos comportamentos inadequados ou agressivos ela emitirá. Esse indivíduo pode se ocupar fazendo coisas diferentes.

O que eu sempre aconselho é estudar muito antes de tomar qualquer decisão e procure um profissional especializado em manejo comportamental, que seria o Psicólogo especializado em Análise do Comportamento Aplicada – ABA. Pesquise antes de contratar esse profissional para garantir que ele tenha experiência no tratamento de pessoas autistas e deficientes intelectuais. O tratamento com equipe multidisciplinar também é fundamental para que a criança desenvolva habilidades sociais e de comunicação, além de melhorar sua aprendizagem e autonomia.

Atenção e memória: as influências na aprendizagem

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Como se aprende? Essa é uma questão relevante quando queremos criar estratégias de ensino mais assertivas. É fundamental entender o funcionamento do processo de aprendizagem para melhorar as técnicas utilizadas no dia a dia, e também para respeitar a individualidade de cada um.

Atenção e memória fazem parte das nossas funções executivas e estas podem ser definidas como um conjunto de funções demandadas em situações que exigem controle de atenção, planejamento de metas e um comportamento intencional e direcionado à realização de objetivos. Os três componentes básicos das funções executivas são: controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. Essas funções básicas colaborariam para a emergência de funções mais complexas, como raciocínio, resolução de problemas e o planejamento. Outros componentes também são citados na literatura, mas hoje focaremos na atenção e na memória.

As funções executivas dependem tanto da maturação biológica como são fortemente influenciadas por aspectos ambientais, culturais e sociais. Por isso sempre reforçamos a importância da estimulação das crianças tanto no ambiente familiar como escolar, pois estes estímulos influenciam o desenvolvimento dessas habilidades.

A aquisição da linguagem é um fator que contribui para o desenvolvimento das funções executivas. A função autorregulatória da linguagem e o uso da fala interna surge entre os 3 e 5 anos de idade, o que permite que a linguagem se torne uma ferramenta para planejar, controlar e avaliar as ações.

A memória é um processo cognitivo que define a dimensão temporal da nossa organização mental. É a capacidade de codificar, armazenar, reter e relembrar informações e experiências anteriores. Sendo assim, ela tem um papel fundamental na aprendizagem, pois permite o reaproveitamento das experiências do passado e do presente e ajuda a garantir a continuidade do aprendizado. É um processo ativo de codificação, armazenamento e recuperação de nossas experiências. Existem 3 processos principais envolvidos na memória:

  1. Codificação — transformação das informações em memória armazenada.
  2. Armazenamento — manutenção das informações codificadas na memória.
  3. Recuperação — acesso às informações codificadas e armazenadas.

A Atenção é um fator modulador da memória e exerce um papel fundamental. Uma criança desatenta poderá apresentar dificuldades na aquisição ou aprendizado das informações.

Uma criança motivada aprende com mais facilidade, porém o contrário, sem motivação, poderá apresentar dificuldades atencionais. Consequentemente não haverá a formação de registros (memórias), exercendo uma influência importante sobre o aprendizado.

Outro fator que prejudica o aprendizado é o nível de ansiedade pois tem um impacto na memória. Um certo nível de ansiedade pode ser considerado útil para que determinados eventos mnemônicos ocorram com a máxima performance. Contudo, a ansiedade em níveis muito elevados tem um efeito inibitório, fazendo com que caia de forma significativa o desempenho do cérebro em adquirir e, principalmente, consolidar novas memórias.

Famílias e professores precisam ficar atentos ao nível de pressão exercida sobre a criança em casos de dificuldade de aprendizagem, pois só piora a situação. Ao perceber que existe algo travando a aprendizagem, o melhor caminho é procurar ajuda profissional da área da Neuropsicopedagogia ou Psicopedagogia.

Empatia: conhecendo os neurônios-espelho

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Você já deve ter passado por situações em que estava conversando com uma pessoa, de repente ela começa a bocejar e quase que imediatamente você também boceja. Essa é uma ação desencadeada pelos seus neurônios espelho. Os neurônios-espelho são especialistas em imitação. Quando assistimos a um filme e começamos a chorar estamos experenciando as sensações daquele ator ou personagem.

O filósofo Marleau Ponty tem um frase que ilustra bem essa nossa experiência: ”Nós compreendemos o outro porque temos dentro de nós a experiência”. Ou seja, compreendemos a ação do outro de maneira autormática, como se ele fosse nós mesmos. Quanto mais eu estudo e conheço o funcionamento do nosso cérebro, mais encantada eu fico com tamanha perfeição. E você?

Algumas situações nos causam sensação de prazer, como quando presenciamos um ato de gentileza. Porém outras nos causam aversão, como situações em que presenciamos atos de violência. Essa é a nossa capacidade de empatia, ou seja, de reconhecimento da emoção do outro, é uma característica altamente adaptativa que está ligada à sobrevivência da espécie.

Os neurônios-espelho são um sistema neural descoberto nos anos 90 por uma equipe de neurocientistas italianos liderados por Giacomo Rizzolati. Na época ele estava estudando neurônios motores e acabou se deparando com um resultado estranho. Ele que as mesmas áreas motoras envolvidas no ato motor também disparavam quando o animal (macaco) observava a mesma ação realizada pelo experimentador.

Hoje em dia esse sistema espelho é amplamente estudado e já foram encontradas relações desse sistema com muitos processos importantes, como no aprendizado por imitação, no desenvolvimento da linguagem, assim como em diversas patologias, como o autismo.

Conforme o artigo ‘’Imitation, Empathy and Mirror Neurons’’ do autor Marco Iacoboni, os neurônios-espelho formam um mecanismo natural capaz de entender a mente de outro ser. 

Nós humanos temos uma forte tendência para alinhar nosso comportamento com o das outras pessoas durante as interações sociais. A imitação facilita as interações sociais, aumenta a conexão, aproxima as pessoas e promove o cuidado mútuo. Por isso que os bons imitadores normalmente também são bons em reconhecer emoções em outras pessoas, o que por sua vez pode levar a uma maior empatia. Além disso, a imitação afeta no processo de gostar de uma outra pessoa. Quando alguém está nos imitando, tendemos a gostar mais dele, porque vemos nós mesmos no outro.

Como diz o neurocientista Ramachandram “A descoberta dos neurônios-espelho representa para os estudos da mente o que o DNA representou para a biologia”.

Seletividade ou dificuldade alimentar?

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Muitas famílias chegam aos consultórios médicos com queixas sobre a dificuldade que o filho tem para comer. É comum que membros da própria família ou amigos próximos digam que é assim mesmo, que é uma fase e irá passar. Isso quando não aconselham a família a deixar a criança com fome para que desperte o desejo de comer.

As pesquisam mostram que cerca de 30% de crianças com desenvolvimento normal apresentam algum nível de dificuldade com alimentação. Dessas crianças, metade delas irão superar essas dificuldades sem uma ajuda especializada.

Em minha época de professora de educação infantil era rotineiro a estimulação da alimentação das crianças. Utilizarmos recursos educativos para ensinar e incentivar as crianças a comerem de maneira saudável. Porém algumas crianças apresentavam resistência. O problema maior é quando percebemos uma seletividade extrema ou quando a criança escolhe alimentos por cor ou textura, o que é um alerta para uma possível Disfunção Sensorial.

Há um grupo de crianças que realmente apresenta uma “dificuldade alimentar”, ou seja, não é apenas exigências em suas escolhas. Suas escolhas alimentares podem ser consequência de uma falta de habilidade para comer ou interpretar os estímulos sensoriais dos alimentos. Nestes casos é muito importante procurar ajuda especializada. Entenda abaixo as diferenças:

SELETIVIDADE ALIMENTAR:

  • Diminuição da variedade ou quantidade de alimentos. Tipicamente consome 30 ou mais alimentos;
  • Aceita pelo menos um alimento por categoria, seja pelo tipo de textura, ou pelo valor nutricional;
  • Tolera novos alimentos no prato;
  • Geralmente é capaz de tocar ou provar alimentos, embora com alguma resistência;
  • Frequentemente seleciona alguns alimentos para comer por determinado tempo, que geralmente podem variar passado algumas semanas ou meses;
  • Participa da refeição em família; normalmente come ao mesmo tempo e no mesmo local que os membros da família;
  • Requer mais de 20 a 25 apresentações para aceitar novos alimentos.

DIFICULDADE ALIMENTAR (SELETIVIDADE ALIMENTAR EXTREMA):

  • Aceitação restrita ou com pouca variedade de alimentos. Geralmente com menos de 20 alimentos;
  • Recusa categorias inteiras de alimentos seja pelo tipo de textura, sabor, aparência ou temperatura (não aceita alimentos em pedaços ou purês, ou alimentos salgados ou alimento com temperatura mais fria ou quente) ou pelo valor nutricional (não aceita nenhuma proteína, ou nenhuma fruta);
  • Apresenta comportamento de fuga, luta ou medo quando os alimentos são apresentados;
  • Quase sempre come alimentos diferentes da sua família;
  • Muitas vezes se alimenta em um ambiente diferente dos outros membros da família;
  • Não aceita formas diferentes de apresentação dos alimentos que consome ou mesmo utensílios que utiliza;
  • Requer mais de 25 apresentações para aceitar novos alimentos.

Independente de qual seja o caso, é recomendável uma orientação com profissional especializado em alimentação infantil. Nos casos de Dificuldade Alimentar (Seletividade Extrema) pode haver necessidade de mais de um profissional para diagnosticar e tratar a criança, além de uma investigação caso essa seletividade esteja acompanhada de outros sintomas, como atraso no desenvolvimento. Os especialistas mais indicados nestes casos são Psicólogos, nutricionistas e terapeutas ocupacionais.

Conhecendo os níveis de aquisição da escrita

Foto por Andrea Piacquadio em Pexels.com

Você sabia que existem fases da escrita? Quando a criança inicia o período de alfabetização é comum que a professora analise em qual hipótese de escrita a criança se encontra. Essas hipóteses estão relacionadas com a relação que a criança faz das letras com os sons, ou seja, com a fala.

Segundo Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1989) a criança passa por um processo de aquisição da escrita baseado em cinco níveis de hipóteses: pré-silábica, intermediário, hipótese silábica, hipótese silábico-alfabética e hipótese alfabética.

No nível da hipótese pré-silábica, a criança não diferencia a grafia de uma palavra em comparação com outra, utilizando traços muito semelhantes entre si. Neste nível, somente a criança é capaz de identificar o que escreveu. Desta forma, a escrita nesta fase pode não funcionar como veículo de comunicação.

Um dado interessante neste processo é que a criança consegue diferenciar seus grafismos pelas características do objeto referido. Por exemplo, se a criança representa a escrita das palavras hipopótamo e formiga, os traços maiores representarão o hipopótamo e os menores a formiga.

O desenho acaba se tornando uma estratégia de remissão ao conteúdo registrado pela criança e a necessidade de demonstrar o objeto escolhido por meio de suas características garante o momento da leitura.

No nível de hipótese intermediário, a criança começa a ter consciência da existência de alguma relação entre a fala e a escrita, além de começar a desvincular a escrita das imagens, dos números e das letras.

As produções da criança apresentam progressos gráficos e construtivos em relação ao nível anterior, ao escrever o próprio nome ou palavras que se interessou ela demonstra estabilidade, pois ainda conserva as hipóteses da quantidade mínima e da variedade de caracteres.

Já no nível de hipótese silábica, as letras começam a ser usadas com valores silábicos fixos e o conflito entre a nova fase e a fase anterior provoca na criança um amadurecimento educacional.

Nesta etapa a criança percebe a relação da fala e começa a dar valor sonoro às letras, ela começa a deduzir que deve escrever tantos símbolos quantas forem às vezes que mexe a boca – cada sílaba oral corresponderá uma letra ou um sinal. Nesta fase, as produções de frases da criança costumam aparecer com a representação de uma letra para cada palavra, exemplo: CVL (cavalo), com (macaco) e assim por diante.

Em seguida ela passa da hipótese silábica para a silábico-alfabética, aqui se inicia uma busca por símbolos para expressar a escrita dos objetos escolhidos, tentando realizar a representação mais próxima da fala com a grafia.

A criança nesta fase pode combinar só vogais ou só consoantes, fazendo grafias equivalentes para palavras diferentes ou combinar vogais e consoantes numa mesma palavra, buscando ajustar os sons, mas sem tornar ainda sua escrita socializável.

A última hipótese do processo de aquisição da escrita é o alfabético. Nesta fase, a criança compreende que a escrita tem uma função social: a comunicação.

É comum nessa transição de fase a criança ainda omitir letras e não separar todas as palavras na frase, mas ela é capaz de demonstrar que conhece o modo de construção da escrita e sabe que cada um dos caracteres corresponde a valores menores que a sílaba, além de conhecer também o valor sonoro de todas ou quase todas as letras, sem haver problemas no que se refere ao conceito da escrita.

Educação de qualidade e inclusão

Imagem de Rosy – The world is worth thousands of pictures por Pixabay

Recentemente a UNICEF, juntamente com seus parceiros, lançou o caderno “Trajetórias de Sucesso Escolar: Caderno de Recomendação – Educação Inclusiva”. O objetivo do caderno é reforçar que educação de qualidade é aquela que não deixa ninguém para trás.

A educação especial vem se modificando com o passar dos anos e é necessário um esforço coletivo para identificar e quebrar as barreiras, somente assim teremos realmente uma educação de qualidade, com novas organizações dos espaços, equipamentos, materiais e estratégias pedagógicas acessíveis, que atendam todas as crianças e adolescentes.

Outro ponto importante é entender que educação especial não é sinônimo de educação inclusiva. Podemos definir educação inclusiva como as mudanças de estruturas e atitudes que são realizadas continuamente para que o acesso ao currículo ocorra plenamente e em igualdade de condições para todas e todos os estudantes. E a Educação Especial tem como função disponibilizar meios e modos que não substituem a educação comum, geral, ou seja, ela é um serviço e não um lugar. É justamente na colaboração entre educadores e educadoras que atuam em diversas etapas e modalidades que está a chave para uma educação inclusiva e equitativa.

No Relatório Global de Monitoramento da Educação, em sua edição de 2020, foram identificadas várias formas de exclusão, como são causadas e o que podemos fazer a respeito. São elas:

  1. Ampliar a compreensão sobre a educação inclusiva: incluir todas e todos os estudantes, independentemente de sua identidade, seu histórico ou suas habilidades.
  2. Financiar aquelas e aqueles que foram excluídos: a inclusão não será possível enquanto milhões não tiverem acesso à educação.
  3. Compartilhar conhecimentos e recursos: essa é a única maneira de sustentar uma transição para a inclusão. Atingir a inclusão é um desafio de gestão.
  4. Envolver-se em consultas significativas com as comunidades e com mães e pais: a inclusão não pode ser imposta “de cima para baixo”.
  5. Garantir a cooperação entre departamentos, setores e níveis governamentais: a inclusão na educação é apenas um subconjunto da inclusão social.
  6. Criar espaço para que atores não governamentais questionem e preencham lacunas: é preciso certificarse também de que eles trabalham em busca do mesmo objetivo de inclusão.
  7. Aplicar o desenho universal: garantir que sistemas inclusivos atendam ao potencial a todas e todos os estudantes.
  8. Preparar, empoderar e motivar a força de trabalho da educação: os professores devem estar preparados para ensinar a todas e todos os estudantes.
  9. Coletar dados para uma inclusão com atenção e respeito: evitar rótulos que estigmatizam.
  10. Aprender com os colegas: a transição para a inclusão não é fácil. A inclusão representa o afastamento da discriminação e do preconceito, em direção a um futuro que pode ser adaptado a vários contextos e realidades.

Quando todas as crianças e adolescentes estiverem na escola, junto com seus pares etários, aprendendo e nos fazendo aprender, conseguiremos vivenciar os resultados e efeitos da educação inclusiva. E mesmo que existam argumentos contrários, precisamos lutar para garantir que todas as crianças e adolescentes vivenciem uma educação de alta qualidade. Esse é o direito que todas e todos precisam ter assegurado!

Leitura e escrita como prática social: o letramento!

Foto por CDC em Pexels.com

A alfabetização é desde sempre uma preocupação nacional. Os anos passam e nos deparamos com pesquisas sobre a eficácia da alfabetização em nosso País. Porém, temos uma outra questão para nos preocuparmos, ser alfabetizado não é mais suficiente para atender todas as demandas da sociedade complexa em que vivemos na atualidade. Antigamente se o indivíduo soubesse escrever o próprio nome e um bilhete já era considerado alfabetizado. Hoje não mais, porque ler e escrever de maneira mecânica não garante uma interação com os diversos tipos de textos que circulam na sociedade, sendo necessário também entender os significados do uso da leitura e da escrita em contextos diferentes.

Neste ponto iremos falar sobre o “letramento”, um termo relativamente novo e técnico, que surgiu da palavra inglesa “literacy” (letrado) como consequência de uma nova realidade social. Sendo assim, letrado é aquele que além de dominar a leitura e a escrita faz uso competente e frequente de ambas. O letramento muitas vezes é confundido com alfabetização. Ele não é a alfabetização, mas a inclui!

Não basta se preocupar apenas com a alfabetização, mas também com o contexto social em que o aluno está inserido.

A tarefa de alfabetizar letrando significa desenvolver nos alunos um conjunto de habilidades e comportamentos de leitura e escrita que lhes dê condições de fazer uso de maneira mais eficiente das capacidades técnicas de leitura e de escrita. O processo de ensino-aprendizagem na escola não pode ser visto como um mundo a parte, é necessário ter a finalidade de preparar o indivíduo para a realidade na qual está inserido.

Existem também níveis de letramento. Podemos deduzir que quanto mais anos de escolaridade, maior o letramento. Errado! Boa parte dos estudantes que completaram o ensino médio e não completaram o ensino superior, não atingiram o nível 3 de letramento, e uma outra parte que já concluiu o ensino superior estão no nível 1 ou 2. Sendo assim, podemos concluir que independente do indivíduo ter completado um ano de escolarização não significa que se tornou letrado de forma adequada e permanente.

O letramento também tem grande influência desde a primeira infância. Na verdade o letramento começa muito antes da criança pegar em um lápis. A partir das suas experiências em família e sociedade, pois tem contato com diversos materiais escritos em lugares diferentes e de formas variadas.

A linguagem não só transmite cultura, mas também pertence a ela. Isto porque passa de geração em geração. Já o letramento é um ato social, pois para considerar-se letrado o indivíduo precisa envolver-se em práticas sociais de leitura e escrita, mesmo que não seja alfabetizado. Um indivíduo letrado consegue exercer plenamente seus direitos de cidadão, uma vez que passa a ter uma leitura diferenciada do mundo.

Esse é o grande desafio da educação, alfabetizar letrando!

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